Corpo sem Órgãos

Recriar meu corpo, refazer meu fazer, um constante num instante. Minha arte. Teatro. Aqui.

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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2008

29.07.08

Rádio em cena

Desde o final de junho, eu trabalho na Rádio Cachoeiro, apresentando, junto com Cleiverson Pinheiro e Wellington Cassimiro, o programa Ronda 1210 - Na Rota do Crime. Nele, eu faço o personagem "Paula", que lê notícias, faz o comercial, brinca com tudo e com todos de forma irônica, escrachada e com um humor que se manifesta em todas as camadas sociais, ouvintes do programa.

Pra mim, é interessantíssimo essa modalidade de interpretação. É mágico mexer com a imaginação do ouvinte utilizando apenas a minha voz que se propaga através das ondas radiofônicas. Esse rádio-teatro está gerando efeitos surpreendentes. Nos últimos dias, os ouvintes do "Ronda" estão indo até o estúdio de onde o programa é transmitido para nos conhecer e levam um susto, já que suas imaginações as levaram para outras imagens, outros personagens... Alguns chegam a pensar que nós somos os próprios personagens, com vida própria e tudo!

É engraçado e, ao mesmo tempo, emocionante. O povo cria uma fidelidade, uma intimidade com o personagem, como se eles fossem amigos de todo dia. E, de certa forma, são, já que estamos ao vivo de 11h ao meio-dia, de segunda à sexta, na Rádio Cachoeiro.

  • criado por  ator3 criado por ator3
  • Postado em 23:32:19

22.07.08

Delírios verossímeis

"Todo artista é um pouco esquizofrênico". A frase de um autor desconhecido há muito martela em minha cabeça. A idéia de que eu, enquanto ator - que isso fique claro! - devo ser eu e devo ser todos é instigante e me excita. Afinal, essa esquizofrenia particular acaba se tornando um jogo em que eu devo estar sempre pisando em ovos pra não vacilar.

Recentemente venho me interessando ainda mais por essa doença mental. Pesquisando, entendi que, resumidamente, o esquizofrênico ouve, pensa e tem sensações diversas e, mais do que isso, acredita fielmente nelas. São delírios que variam do ponto de vista de quem observa o fenômeno: pro individuo que vê, absurdos; pro que sofre os transtornos, verossimilhantes. Esse fato pode ser visto em clínicas psiquiátricas, nas ruas, na casa do vizinho, em filmes... Posso citar três: Hannibal, Uma Mente Brilhante e, mais recente, Batman - O Cavaleiro das Trevas. Esse, marcado pela morte do ator Heath Ledger que interpretou, de forma verossimilhante, o Coringa.

Coringa é o arquiinimigo do Batman. Um personagem mal, que vai além da função de antagonista, pois possui pensamento esquizofrênico, logo não tem um objetivo final. Assistindo ao filme, percebe-se que seu desejo é ver "o mundo pegar fogo".

Especula-se que Ledger morreu por causa da tamanha intensidade com que absorveu a mentalidade esquizofrênica do Coringa. Acho isso uma inverdade, já que o trabalho de um ator nada mais é do que representar, de forma verossimilhante, o personagem. A diferença é que ele fez isso de forma brilhante. Um ator deve ser múltiplo, deve ser muitos. Deve ser todos e ser ele ao mesmo tempo. Segundo Artaud, em O Teatro da Crueldade (Primeiro Manifesto), "O ator é ao mesmo tempo um elemento de primeira importância, pois é da eficácia de sua interpretação que depende o sucesso do espetáculo, e uma espécie de elemento passivo e neutro, pois toda iniciativa pessoal lhe é rigorosamente recusada." (1999, p.113).

Ledger foi ator o suficiente para fazer um belo papel e foi ele mesmo ao criar a performance de sua atuação. Isso exclui a possibilidade da esquizofrenia de seu personagem levar o ator a morte.

(Minha função hoje não é falar de um filme. Voltemos ao assunto do primeiro parágrafo sem perder a linha.)

O ator é/deve ser muitos e a idéia de ser todos é quase um orgasmo quando se quer interpretar, fazer, trabalhar... Delírios verossimilhantes são deliciosos na arte de representar. A esquizofrenia, aqui, é apenas (!) um complexo e enigmático laboratório quando se quer interpretar...

Referência:
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

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  • Postado em 18:09:38

15.07.08

Um fazer

Eu e Alessandra em uma interpretação da crônica "Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim", de Rubem Braga. 5ª colocada no II Festival de Teatro Rubem Braga - Crônicas Interpretadas que ocorreu no dia 31 de maio de 2008, no Teatro Rubem Braga, em Cachoeiro/ES.

Interpretação da crônica "Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim", abrindo uma palestra na II Bienal Rubem Braga.

"Cotigalhando" na II Bienal em 07 de junho.

"A Casa Viaja no Tempo" na II Bienal em 08 de junho.

Abertura da exposição fotográfica de Cachoeiro sob a ótica de Nelson Sylvan. Leitura dramática de um texto de sua criação.

Leitura dramática no Mourad's em uma reunião do Encuca (Encontro Cultural Cachoeiro).

  • criado por  ator3 criado por ator3
  • Postado em 18:24:08

14.07.08

Cotigalhando e minha essência

Quero iniciar colocando as apresentações que tive esse ano - até o 1º semestre - com o Atores do São Camilo. A peça em questão é "Cotigalhando", de Sara Passabon Amorim.

Durante o ano de 2007, nosso grupo desenvolveu no Hospital Infantil de Cachoeiro de Itapemirim o projeto "Terapia do Riso - A Arte do Humor", levando alegria e bem-estar às crianças hospitalizadas. Ao final do ano, como produto de encenação, montamos a peça "Cotigalhando", com encenação no Teatro Rubem Braga para a comunidade interessada no meio teatral com a renda destinada ao HIFA.

O neologismo do título ilustra o roteiro da peça: retratar o cotidiano com bom humor, explorando a expressão corporal, a mímica e o grotesco. Unindo o projeto no Hospital Infantil e a peça, foram meses de estudos teóricos e práticos.

Esse ano, já que a peça contagiou a todos, apresentamos o espetáculo no projeto Quartas no Teatro, que exibe peças de vários grupos do Estado no Theatro Carlos Gomes, em Vitória (ver foto acima).

Na II Bienal Rubem Braga (foto acima) voltamos a apresentar a peça. Cada apresentação é uma performance e um feedback diferente. Experimentar é sempre uma vivência interessante, que instiga meu corpo de atuante, minha vontade e capacidade de criação.

Em seu "Em busca de um Teatro Pobre", Grotowiski diz que "o ator que realiza uma ação de autopenetração, que se revela e sacrifica a parte mais íntima de si mesmo (...), deve ser capaz de manifestar até o menor impulso". Ao encenar o Cotigalhando - ou qualquer outra peça - sinto que isso está ficando cada vez mais forte em mim. Sou ainda um ator iniciante, em começo de carreira, com muita, muita, muita coisa pra aprender. Entretanto, se já consigo, ao criar meu personagem, tocar uma célula que faz parte do profundo de meu ser, é sinal de que já sei atingir o impulso de minha arte, do meu teatro.

Como diz Sara, devo evoluir, sem jamais perder/esquecer minha essência. Ela está certa. No teatro e na vida. Em cena, sempre!

  • criado por  ator3 criado por ator3
  • Postado em 22:40:16