Corpo sem Órgãos

Recriar meu corpo, refazer meu fazer, um constante num instante. Minha arte. Teatro. Aqui.

Corpo sem Órgãos

Recriar meu corpo, refazer meu fazer, um constante num instante. Minha arte. Teatro. Aqui.
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Arquivo de: Setembro 2008

21.09.08

A Lenda do Nenê Doido na Capital Secreta

(Um cordel que eu criei pra alegrar o ambiente! Uma homenagem à lenda viva de Cachoeiro, o mestre dos mestres: Nenê Doido!)

Meus senhores companheiros
De Cachoeiro de Itapemirim
Hoje faço esses versos
Criados até então por mim

Prestem muita atenção
Dum personagem vou falar
Por onde passa é só visão
Ele é um Pop-Star

Nenê Doido é o cara
Vem correndo, vem gritando
E o sujeito se prepara
Acha que o mundo está acabando

Com seu jeito estabanado
Chega feito meia lua
Aponta pro homi e pra mulher
E a vida continua

Quando olhado bem de longe
Ele espanta de montante
Se olhado bem de perto
É lisonjeiro e quase belo

Mas olhe no que ele virou
Você sabe como é
Hoje a rua toda parou
Para ver o homem a pé

Se você passa na esquina
Nenê Doido nem conhece
Se você fica com medo
Nenê Doido faz a prece

Se você olha espantado
Nenê Doido abre a boca
Se der um grito danado
Ele espanta a velha louca

Se você chama sua mãe
O homem corre bem rasteiro
Se você ficar na frente
Leva um chute no traseiro

Lá no centro da cidade
Não se fala em outra coisa
Nenê Doido pega o pente
E põe o sebo na boca

Vou seguindo meu Cordel
Minha senhora, meu senhô,
Preste muita atenção
A prosa ainda num acabô

To falando desse homi
Lenda viva da cidade
Corre feito Lobisomi
Olha até quem tá na laje

Como quem bate o martelo
De juiz dando sentença
Do imaginário belo
Nenê Doido tem presença

Pererê se pega a rir,
Valadão ta nem ai
Sigo a rima paralelo
Metrifico no martelo
Faço isso sem mistério
Nenê Doido é sincero
É aqui e em Castelo
Vou mandando o papo reto
Eu só quero é divertir

Só não podia esquecer
Do famoso cigarrinho
O homi vê ele crescer
Pra querer dar um tequinho

E não discorde dele não
Senão o bicho vai pegar
Ele abre o bocão
Xinga todo palavrão
Em melodia inspiração
Dá um berro, meu irmão
Pega ligeiro sua mão
De dentro dele surge, então
Um estrondoso gemidão
Chama toda a atenção
Grita feito um leão
Corre pelo calçadão
Ai de você se duvidar

Olhe que maravilha
Nenê Doido vem chegando
Esse homi aqui está
E desse jeito vai ficando

Já passou humilhação
Ascensão, desilusão
Nossa Senhora da Consolação
Ele espera a salvação

E Cachoeiro tá no ventre
De toda mãe que ai está
Nenê Doido é pra sempre
E pra sempre vai ficar!

Domingo de muitos planos, 21 de setembro de 2008.

Foto: Luan Volpato

  • criado por  ator3 criado por ator3
  • Postado em 21:55:10

14.09.08

Minhas memórias não-póstumas

(Depois de muita falação sobre meu fazer teatral, resolvo, agora, falar sobre minhas inspirações, aventuras e outros sentimentos)

Em julho desse ano, fiz uma viagem ao Rio de Janeiro para conhecer lugares que ainda não tinha ido, ver eventos que havia selecionado e peças de teatro que havia agendado. Um desses eventos foi na Academia Brasileira de Letras que, na ocasião, comemorava seus 111 anos e o centenário de morte de Machado de Assis. Fernanda Montenegro interpretaria uma das mais enigmáticas personagens da literatura brasileira: Capitu (“olhos de ressaca”), obra de Machado em Dom Casmurro. A personagem faz sua defesa às acusações de Bentinho no livro “Capitu – Memórias Póstumas” do escritor Domício Proença Filho. Em linhas gerais, Fernandona faria a leitura dramática do livro. Tudo muito bacana, tudo muito legal, mas o que eu vivi, só eu sei. Uma odisséia para assistir nossa prima-dona do teatro brasileiro em cena. Vamos aos fatos!

De acordo com jornais e revistas, eu deveria chegar uma hora antes do horário recomendado para pegar as senhas de entrada, que eram de graça. Cheguei duas horas antes. Sentei-me em uma minúscula cadeira pertencente a uma fileira de 100, onde uns vinte indivíduos já estavam acomodados. Juntei-me a desconhecidos professores, intelectuais, escritores, artistas que, naquele momento, formavam um grupo de anônimos fãs da atriz. Após duas horas sentado e de muita paciência, eis que as senhas foram distribuídas. A essa altura, eu já era amigo de todos. Com a senha na mão, os míseros segundos de felicidade se transformaram em mais duas horas de espera e tédio. Se eu não gostasse tanto de teatro, da Fernanda, de Machado de Assis e não tivesse a consciência de que aquele era um momento importante para o teatro e para a literatura, eu já teria ido embora como fizeram alguns sôfregos.



Durante essas duas horas, nós, mortais, ficamos sabendo que estava em progresso um evento de premiação que a ABL promovera na época. Todos os imortais estavam presentes. Logo, A leitura dramática só poderia começar quando essa cerimônia terminasse. Anoitecia na Avenida Presidente Wilson. A lua carioca já se fazia presente quando, finalmente, fomos convidados a entrar no Teatro R. Magalhães Jr, nos interiores da Academia. Isso, claro, logo após a entrada de todos os acadêmicos na nossa frente, que tinham cadeiras reservadas. Nélida Piñon, Marco Maciel, Cícero Sandroni, todos passando diante de meus olhos, enquanto, em pé, espero ansioso para entrar ao teatro.

Aproximadamente quatro horas e meia de espera depois, vejo diante de meus olhos uma Fernanda incorporada de Capitu, olhos e corpo inteiro de ressaca, porém com uma incrível vitalidade e potência de voz para se defender de Bento, seu ex-marido. Sentada na cadeira de Machado de Assis, à mesa dele e ao lado do piano do escritor, Capitu em Fernanda – ou Fernanda em Capitu (a beleza da interpretação confunde) – declara sua defesa: “Quem nos traiu foi ele. O amigo que o amava, a mulher que o admirava e a si mesmo". 45 folhas ou uma hora e quarenta e cinco minutos depois, a interpretação é ovacionada com de aplausos e saudações à atriz. Vou-me embora feliz, preenchido e inspirado. A epopéia valeu para as páginas de minhas memórias.


  • criado por  ator3 criado por ator3
  • Postado em 14:41:13

07.09.08

Ser ou não ser? Não ser.

Ventos uivantes. Assobios. Algo novo está chegando. Os corpos se distribuem pelo espaço brincando e descobrindo seus instrumentos musicais. Ventos uivantes. Assobios. Todos se localizam. A performance em questão é “Arte e Existência”, aquela que citei em meu texto anterior, onde ainda ensaiávamos. A proposta era mostrar as vertentes corporais e psicológicas, através do teatro, da existência humana, tão questionada por Antonin Artaud.

Localizados, os performers iam tocando seus adereços cênicos, experimentando, seduzindo os elementos com que, mais tarde, se transformariam em parte-integrante do duplo do ator. Era como uma evolução: meu Duplo estava vindo. Aos poucos, saindo de mim, de minha essência. Eu estava, naquele momento, reconstruindo-me, deixando de lado uma obra mal feita, mal elaborada, cheia de órgãos, células, nervos e tendões. Surgia, ali, outro ser. Um corpo sem órgãos, que questiona sua existência nesse mundo. Que verdade é essa que construímos pra viver? O homem só existe a partir do momento em que ele não existe; em que ele busca sua verdade verdadeira. Nessa busca, ele não existe, ele não é, mas busca ser. É a busca um novo corpo...

Para a elaboração de um novo corpo, era preciso um sacrifício, uma entrega total. Falas selecionadas de Artaud eram declamadas na estética do Teatro da Crueldade. Ou seja, na medida em que os textos eram ditos, uma vertigem era causada para essa desconstrução do corpo. Afogamento, estrangulamento, pressões, tapas, força. Dor. O que parece absurdo para a sociedade era visto, na nossa estética teatral, como uma performance de construção de um novo ser. Quando afogávamos em uma bacia a performer, a platéia se espantava, manifestando horror, repulsa. Quando fui enforcado, a reação da platéia não foi diferente, pois toda aquela “anormalidade” acontecia entre eles, diante deles. A transformação para um corpo sem órgãos acontecia ali, naquele momento. Algo que não se diz em palavras - o momento e a atuação falam por si.


Depois de toda a entrega e toda a transformação, máscaras denunciavam a existência de novos seres. As máscaras sociais eram criticadas nessa parte final da performance, mostrando que todos nós, que utilizamos inúmeras facetas para atuar na sociedade que criamos, podemos utilizar essas mesmas máscaras para sermos novos corpos atuantes.

Como de praxe, não saí ileso de uma performance artaudiana. Hematomas no joelho e meu cotovelo em carne viva foram heranças que ganhei dessa performance e dessa reconstrução do corpo. A platéia, composta em sua maioria por acadêmicos do curso de Psicologia, manifestou ter gostado muito, dado a intensidade dos aplausos.



Em tempo: se Hamlet conhecesse Artaud, poderia responder sua pergunta sem pestanejar: Ser ou não ser? Não ser.

Fotos: Luan Volpato

  • criado por  ator3 criado por ator3
  • Postado em 12:55:10