Corpo sem Órgãos

Recriar meu corpo, refazer meu fazer, um constante num instante. Minha arte. Teatro. Aqui.

Corpo sem Órgãos

Recriar meu corpo, refazer meu fazer, um constante num instante. Minha arte. Teatro. Aqui.
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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2009

17.02.09

"Por que seu blog se chama Corpo sem Órgãos?"

Quantas vezes eu já ouvi essa perguntinha dos meus queridos leitores-amigos-assíduos? Pra quem é leigo, estranha ao ver esse termo: imaginam um corpo vazio, sem nada, e aí leem a descrição que faço do blog - teatro, aqui, coisa e tal... - e a dúvida ainda persiste. O que um corpo, sem órgãos, tem a ver com um blog sobre teatro?

Ai é que tá! Como disse, pra um leigo, nada significa. Mas o termo Corpo sem Órgãos vem de um dos maiores teatrólogos da história do teatro: Antonin Artaud. Já escrevi sobre ele aqui. Nesse ano de 2009, sua presença em minha vida está ainda mais influente. Ele e seu Teatro da Crueldade é tema de minha monografia.

Portanto, amigo, mesmo que você não esteja interessado, vou falar um pouco mais desse francês e de sua arte.

Antonin Marie Joseph Artaud (04.set.1896 - 04.mar.1948) foi muitos. Quis ser um todo da qual nem ele soube o tamanho de sua totalidade. Vivente de uma época de transformações políticas e sociais, Artaud encontrou no teatro a forma máxima de expressar o seu anseio pela revolução. Que revolução foi essa? Ora, o próprio autor busca defini-la através de variáveis nomenclaturas: alquimia, metafísica, crueldade... Conceituar um nome não é importante, haja vista que seus conceitos e suas expressões vão além do determinismo.

Para Artaud, o teatro é a forma de expressão e de comunicação humana mais pura e verdadeira aonde pode acontecer uma revolução social, pois é na vida que a cultura se fundamenta para existir. “[...] Um novo órgão, uma espécie de segundo espírito [...]” (ARTAUD, 2006: 02), pois é na cultura, pela cultura, através da cultura que o homem age, pensa, transforma, modifica. E é nessa cultura, indissolúvel, que Artaud propõe uma nova intensidade de existência, um novo olhar sobre a sociedade vigente com seus valores, morais e éticas. O Teatro da Crueldade propõe um olhar interno, um túnel rumo ao questionamento de nossa existência em uma terra de hierarquias e estruturas pré-concebidas. Ele possui um olhar sobre o indivíduo - e aquilo que o constitui - particularmente peculiar, dotada de incrível complexidade e, ao mesmo tempo, sempre contemporânea. Entretanto, o próprio Artaud esclarece: “Meu ponto de vista é nitidamente antissocial” (ARTAUD apud FELÍCIO, 1996: 59).

E quanto ao corpo sem órgãos, explico: Artaud propõe a desconstrução do corpo, um corpo sem órgãos, só de sangue e osso, desfazendo-se da criação do divino e do corpo social, corpo esse formatado por uma civilização alienadora. Ou seja, a idéia é desfazer-se de um corpo que não pertence mais ao ser.

Referências:
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
FELÍCIO, Vera Lúcia. A procura da lucidez em Artaud. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 1996.

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