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Quantas vezes eu já ouvi essa perguntinha dos meus queridos leitores-amigos-assíduos? Pra quem é leigo, estranha ao ver esse termo: imaginam um corpo vazio, sem nada, e aí leem a descrição que faço do blog - teatro, aqui, coisa e tal... - e a dúvida ainda persiste. O que um corpo, sem órgãos, tem a ver com um blog sobre teatro?
Ai é que tá! Como disse, pra um leigo, nada significa. Mas o termo Corpo sem Órgãos vem de um dos maiores teatrólogos da história do teatro: Antonin Artaud. Já escrevi sobre ele aqui. Nesse ano de 2009, sua presença em minha vida está ainda mais influente. Ele e seu Teatro da Crueldade é tema de minha monografia.
Portanto, amigo, mesmo que você não esteja interessado, vou falar um pouco mais desse francês e de sua arte.

Antonin Marie Joseph Artaud (04.set.1896 - 04.mar.1948) foi muitos. Quis ser um todo da qual nem ele soube o tamanho de sua totalidade. Vivente de uma época de transformações políticas e sociais, Artaud encontrou no teatro a forma máxima de expressar o seu anseio pela revolução. Que revolução foi essa? Ora, o próprio autor busca defini-la através de variáveis nomenclaturas: alquimia, metafísica, crueldade... Conceituar um nome não é importante, haja vista que seus conceitos e suas expressões vão além do determinismo.
Para Artaud, o teatro é a forma de expressão e de comunicação humana mais pura e verdadeira aonde pode acontecer uma revolução social, pois é na vida que a cultura se fundamenta para existir. “[...] Um novo órgão, uma espécie de segundo espírito [...]” (ARTAUD, 2006: 02), pois é na cultura, pela cultura, através da cultura que o homem age, pensa, transforma, modifica. E é nessa cultura, indissolúvel, que Artaud propõe uma nova intensidade de existência, um novo olhar sobre a sociedade vigente com seus valores, morais e éticas. O Teatro da Crueldade propõe um olhar interno, um túnel rumo ao questionamento de nossa existência em uma terra de hierarquias e estruturas pré-concebidas. Ele possui um olhar sobre o indivíduo - e aquilo que o constitui - particularmente peculiar, dotada de incrível complexidade e, ao mesmo tempo, sempre contemporânea. Entretanto, o próprio Artaud esclarece: “Meu ponto de vista é nitidamente antissocial” (ARTAUD apud FELÍCIO, 1996: 59).
E quanto ao corpo sem órgãos, explico: Artaud propõe a desconstrução do corpo, um corpo sem órgãos, só de sangue e osso, desfazendo-se da criação do divino e do corpo social, corpo esse formatado por uma civilização alienadora. Ou seja, a idéia é desfazer-se de um corpo que não pertence mais ao ser.
Referências:
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
FELÍCIO, Vera Lúcia. A procura da lucidez em Artaud. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 1996.
criado por ator3
10:40:56